sábado, 23 de agosto de 2008

UMA BONECA MÁ

Engravidou de um grave estado de vida que não tem mãe nem pai, apenas é.
Estranha coisa. Viva. Amorfa. Que precisa destruir o útero que a ampara.
Engravidou de morte viva.
Em grave e dando saiu pelas ruas devolvendo ao mundo o prazer mórbido que a havia contaminado.
Estranho imaginar-se moribundo? Perigoso sê-lo.
Quantas irmãs haviam se engravidado da semente maldita que dar luz a morte?
Pensou em vão. Caminhou horas a fio tentando desparecer a alma. Mas Ele estava em tudo. Nela. Na rua. Nas janelas dos prédios. Dentro dos carros. Nos mictórios. Nos cinemas. Nos hospitais. E no Lar.
Lar era a coisa contida. O desejo oprimido que sempre reprimira.
Um homem que fosse seu. Pai. Filho. Irmão mais velho. Amigo. Amante. Mas que fosse sem se preocupar que fosse. Sem lhe culpar por assim ser.
Quantas vezes jogou-se pelas ruas a procura desse homem que pudesse ser seu. Que soubesse acalmar seu desejo. Sem interpretá-la mal. Que comungasse desse sei lá o que a consumia em noites de solidão.
Esbravejando saiu pela rua ainda anestesiada do choque.




Na pista a noite antecipava: corpo a céu aberto se jogando. Em carne viva tentava ser.
Peixe no Mar. Rede na vida. Em movimentos de aproximação/repulsa contrai-se em conchas. Perante a possibilidade de um olhar acontecer: Corpo fechado. O corpo é, e sendo, timidamente desfila contando histórias. Dilata valises.
O corpo existe: por si basta... Corpo contido... Corpo carbono.


Depois de exterminar a quarta barata o especialista em saúde pública regozijou-se de seu poder atômico.
Sofria de reminiscências, o que para um discípulo lacaniano nada mais era do que uma falha da estrutura.
Língua inflamada, cortada pela espada da palavra perdida, descida goela abaixo. Num ritual diabólico havia se desumanizado...
A mancha de sangue sobre os vidros denunciando o último esforço que fizera numa tentativa inútil de desobstruir as vias aéreas - interrompidas pela poeira do tempo, dava a impressão de que o espelho não lhe satisfizera. Seu olhar atravessou a parede intestinal, pondo em risco o projeto de uma civilização sadia: como se espiar para fora (de dentro) não lhe fosse suportável, por quatro vezes naquela noite havia negado a vida.

Estava assim

Feito coisa perdida
Substancia volátil sem pátria
O perigo de tudo fora de mim
Fazia cócegas na garganta
Enquanto a tarde como algodão doce
Preparava-se para dormir
Ah, quem dera coragem para ser covarde
Mentir só mais uma vez
Sorrir do tempo que não veio


Campinas-SP, 09.11.2002

Nunca se dera ao luxo de fazer escolhas. A história de sua vida de tão precisa atraía admiradores de alhures. O corpo onde - igual coisa perdida - se escondia assegurava-lhes a certeza de desejos invioláveis: Abre-te Cézamo!. Guardara para si a contestação de confissões ambíguas: Fecha-te boca!. Objeto de forte especulação. Na palma da mão o mundo. No bolso uma fotografia.
Dez anos passaram-se desde a última vez que se olhou no espelho. Não fosse a amargura das palavras e sua voz havia se passado desapercebida.


Campinas – SP,18.11.2002

Hoje é um dos dias em que se pudesse eu me quebrava.
Porque viver doe. Minhas manias de remendar uma vida que não presta. Quando Deus existia eu me sacrificava pelos meus desejos e a recompensa já cheirava a castigo. Tinha cheiro de sangue, tinha barulho de morte. Mas era uma morte tão viva. Era como cantar com fome. Depois que libertei Deus é que tudo ficou assim como as manhãs de domingo. Não gosto de domingos. Sempre adiei meu projeto de felicidade pro dias comuns. Os lírios não me merecem aos domingos. Existe alguma coisa errada aos domingos. O telefone de minha amiga toca e não atende, já é o terceiro recado. O mocinho atende como se não fosse. Em vão volto a ser mais uma vez em minha intimidade. Odeio as minhas manias, tenho medo de ficar a sós com elas. Os cravos não me merecem.




O corpo depositário de confidencias esquecidas sinaliza
O adeus de outrora que ficou perdido
O sujeito amado não mais desejado
Carruagem de cavalos sem nenhum comando

O corpo-folião na avenida vazia reclama
A melodia fúnebre de uma tarde dançante
A poesia trágica dos amantes
A mão estendida do melhor amigo

O corpo esqueleto humano esbarra na agressão muda
Atropelando a justiça cega.

AJU - 2005

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Enquanto O espero a ansiedade aumenta.
Faltam apenas quatro minutos para que os ponteiros do telefone toquem as vinte e duas horas esperadas...
Aqui no café e arte, palco de encontros e desencontros, com minha cara pra dentro a remexer velhos medos.
Meu corpo é um refugio de dores entregue ao nada.
Seis minutos correm. Eu paro para vê-lo passar porque estar só me assusta.
A noite é longa para uma vida curta.
Preciso acreditar que Ele vem pra que à noite não me leve mais rápido do que a vida.
Preciso acreditar que Ele vem e que não será pelas mãos de hera.
A sinfonia que O anuncia está desfalecida pelos medos e modos que me escravizam.
Dez minutos passaram e Ele não passou.

Campinas 2002.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Parahyba Sem Homofobia.



Ensaio fotográfico "Parahyba sem Homofobia", no Convento, Centro histórico de João Pessoa, em Julho de 2008.

Trecho do Poema "A Meretriz"
Wikisource, a biblioteca livre
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A Meretriz
por Augusto dos Anjos

É a meretriz que, de cabelos ruivos,

Bramando, ébria e lasciva, hórridos uivos

Na mesma esteira pública, recebe,

Entre farraparias e esplendores.

O eretismo das classes superiores

E o orgasmo bastardíssimo da plebe!